a política das janelas

Em março de 2015, os brasileiros inauguraram uma nova forma de manifestação política, os panelaços nas janelas. Naquela noite do dia 8 a então presidenta Dilma Rousseff aproveitou o seu pronunciamento televisivo anual no Dia Internacional da Mulher para falar sobre a crise econômica que o Brasil e o mundo atravessavam e comentar a investigação de corrupção na Petrobras. Porém, as batidas de panela – também os gritos de Fora Dilma! Fora PT!, as buzinas e o acender e apagar de luzes – emitidas das janelas de apartamentos pelo país repercutiram muito mais do que o discurso da presidenta, que via seus índices de popularidade despencarem desde as manifestações de junho de 2013, mas cuja inversão radical da tendência de aprovação consolidava-se naquele período, entre dezembro de 2014 e março de 2015.

Aquela primeira leva de panelaços e manifestações nas janelas anteciparam os atos do domingo seguinte, 15 de março de 2015, quando milhões de opositores ao governo Dilma saíram às ruas pedindo seu impeachment, que se concretizaria um ano e três meses depois. Nesse período, foram vistos e escutados das janelas de apartamentos pelas capitais do país vários desses panelaços em pronunciamentos da ex-presidenta, ou durante notícias negativas contra o governo, normalmente no horário do Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão. Neste mesmo programa, em sua edição de 16 de março de 2015, oito dias depois dos primeiros panelaços, um dia depois da primeira grande manifestação contra Dilma, foram divulgados, junto com outros áudios gravados pelo então juiz Sergio Moro, comentários de Marisa Letícia Lula da Silva, esposa do ex-presidente, falecida em 2017, a respeito dos panelaços. Em conversa com o seu filho Fábio sobre os “paneleiros” de São Bernardo, ela relata ter escutado os barulhos “só dos prédios novos dos coxinhas”, que custam “500 mil reais”, e o filho reagiu: “deixa eles se manifestarem (…) eles têm o direito democrático.”

Desde a campanha presidencial de 2014, quando o PT venceu por uma pequena margem de diferença, havia em curso no Brasil uma articulação poderosa de oposição ao governo, sobretudo através das redes sociais. A democratização no acesso a celulares com conexão à internet e a expansão dos usuários de redes sociais de comunicação, especialmente o WhatsApp, foram mais estrategicamente aproveitadas por políticos de direita, alguns deles surgidos no contexto das manifestações de 2013 e que se vendiam, naquele momento, como não políticos. Impulsionados pela crise econômica, que se alimentava também da sabotagem dos congressistas, pelas divulgações do Judiciário combinadas com a imprensa, além de investimentos privados e táticas importadas de estrategistas políticos estrangeiros, criaram-se novas e poderosas formas de reunião de opositores ao governo, ampliando aceleradamente as adesões aos seus diagnósticos e receituários.

Em 2013 já havia manifestações de direita no Brasil, mas os episódios nas janelas dos condomínios de classe média performavam algo inédito. Novos agentes políticos que há pouco estavam se articulando (e se politizando, por que não?) por meio de plataformas lidas como virtuais foram aliciados pelas redes para extravasar, literalmente, os seus espaços privados, seus apartamentos, para, munidos de equipamentos triviais que emitem som, panelas e colheres de pau, fazerem seu barulho contra o governo. Esses gestos, esses sons e essas imagens ecoavam e se amplificavam pelas acústicas entre os paliteiros de edifícios nas cidades grandes e médias brasileiras e foram replicados à exaustão pelas mesmas plataformas digitais, e pela imprensa tradicional, ampliando ainda mais o efeito manada que pode ter contribuído, estrategicamente, para a adesão massiva às manifestações de rua que ocorreram na sequência.

Os panelaços são conhecidos dos brasileiros especialmente desde a crise econômica argentina de 2001, quando manifestantes protestavam batendo panelas vazias pelas ruas de Buenos Aires, em uma referência ao seu estado de empobrecimento e até de fome. Já no Brasil, os paneleiros gritavam dentro de seus apartamentos de classe média – muitos construídos, financiados e adquiridos durante o período do PT no governo, quando se fomentou uma política de Estado de incentivo e subsídio à construção civil – protegidos, com sua renda e seu emprego estáveis até então. Nesse espaço aéreo, sem sair de suas casas, é possível extravasar o universo dos celulares e computadores e encontrar sonora, imagética e corporalmente seus pares mais radicais que, mesmo que constituíssem naquele momento uma pequena parcela dos moradores de um prédio, quarteirão ou bairro, criaram a sensação de que representavam a maioria.

Tudo parece ter sido muito bem planejado pelos tais políticos de direita, que organizaram meticulosamente os protestos nas janelas como esquenta para os de rua. Os panelaços foram tanto o termômetro como o dispositivo político multiplicador em um momento em que nem o impeachment parecia viável e tampouco a ascensão do fascismo se revelava como uma possibilidade eleitoral à vista. Os efeitos daqueles barulhos que silenciaram a presidenta Dilma, em um dia simbólico da luta e da resistência política das mulheres, são sentidos até hoje.

Os panelaços se repetiram algumas vezes naquele ano e nos próximos. No entanto, vale mencionar, as manifestações de direita pelas janelas não reverberaram sozinhas e sem oposição. Em muitos bairros pelo país, como no centro da cidade de São Paulo, que tem uma composição eleitoral bem dividida, os quarteirões tornaram-se, desde 2014, verdadeiras arenas, onde os moradores vocalizam palavras de ordem apoiando grupos e sentidos políticos antagônicos. Em 23 de agosto de 2019, os panelaços foram surpreendentemente apropriados por opositores do governo de Jair Bolsonaro, durante um pronunciamento em rede nacional do atual presidente. Ainda, mais recentemente, em 18 de março de 2020, os moradores em quarentena retomaram os protestos pelas janelas contra o governo, que se repetiram por volta das oito da noite quase diariamente por meses.

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Janelas, varandas e balcões servem há séculos como palcos para lideranças políticas, reis, papas, ditadores e também celebridades se relacionarem, mesmo que a distância e assimetricamente, com seus súditos e fãs. 1AVERMAERTE, Tom et al. (orgs.). Balcony. Venice: Elements of Architecture, 14. International Architecture Exhibition, la Biennale di Venezia, 2014. Curadoria de Rem Koolhaas. O gesto de colocar bandeiras, faixas ou cartazes nos espaldares identifica publicamente o imóvel com a posição política de quem lá reside. A janela, ou a metáfora dela, é o locus por onde se derrota o adversário político, a chamada “defenestração”. Trata-se de um elemento associado ao doméstico e ao civil, mas derivado dos fortes militares, por sua capacidade de possibilitar, simultaneamente, proteção, visualização e ataque. A primeira janela preenchida com vidro remonta ao século 2 no Império Romano, material desenvolvido com o intuito de conciliar isolamento e luminosidade. Uma das estratégias mais utilizadas pelos black blocks em manifestações de rua consiste em quebrar as portas e as janelas de vidro de agências bancárias, sem saquear nada. 2DI ROBILANT, Manferdo; MAAK, Niklas et al. (orgs.). Window. Venice: Elements of Architecture – 14. International Architecture Exhibition, la Biennale di Venezia, 2014. Curadoria de Rem Koolhaas.

Na história da arquitetura, as janelas delimitam a separação e a abertura permitida e possível entre o mundo interno e o externo às construções. Há algumas situações específicas, como nos templos funerários, quando se considera desnecessário, ou até indesejável, a sua conexão com o mundo dos vivos. Também em teatros, cinemas e em muitos museus, para o controle de luz e preservação das obras. A maioria das construções pressupõe, porém, de diferentes modos, abertura(s) para fora. Se a arquitetura se constrói sob o paradigma do corpo humano, as janelas são os olhos. Quando não se fazem presentes, ou não são suficientes, o ambiente é considerado claustrofóbico, asfixiante, soturno. As janelas são associadas à vida, à luz, à ventilação e à filtragem. 3COLOMINA, Beatriz. “X-ray Architecture: Illness as Metaphor”. Positions #0, 2008. “X-Screens: Röntgen Architecture”. e-flux journal #66, out. 2015. Na arquitetura burguesa, são também o espaço de contemplação, provendo uma vista, uma visão de mundo, uma conexão física com ele e até um escape para a imaginação.

Johanees Vermeer, Moça lendo uma carta à janela (1657-1659)

Essa membrana entre o mundo doméstico e o público, permeável, mas visível, se materializa através do desenho de cada tipo de janela e dos materiais a ela associados. Se a abertura para o mundo externo nasce nos abrigos humanos como uma mancha disforme ou um buraco, como no olho ou nas cavernas, ela se desenvolve e se consolida como retângulos. Através deles se enquadra um trecho do que está ao redor das edificações, paisagem que pode ser vista parcialmente de dentro, e vice-versa – a vida de quem está abrigado atrás de cada janela pode se delinear para quem olha de fora através dos recortes das molduras dos respectivos caixilhos.

Se a metáfora do olho como janela da alma ainda circula, mesmo que como clichê, a pintura e a arte como janela do mundo também. Janelas e pinturas, a primeira como realidade em movimento e a segunda como representação, se dispõem sobre a superfície interna dos edifícios. Neste ponto a história da arquitetura e a história das artes visuais se encontram, segundo um procedimento similar de enquadramento contra a parede. 4ARDUI, Olivia. “De corpos expostos: entre presença e representação”. In: ARDUI, Olivia, BRYAN-WILSON, Julia, PEDROSA, Adriano. Histórias da dança. Vol. 1: catálogo. São Paulo: MASP, 2020. A superfície retangular das telas se desenvolve no contexto do Renascimento italiano, quando havia outros formatos possíveis e em disputa, como o tondo (circular), muito utilizado, por exemplo, por Sandro Botticelli (1445-1510), mas o retângulo é até hoje hegemônico. Os vídeos, por sua vez, também mantêm uma relação retangular com as cenas, os frames. Toda a arquitetura, ainda que por oposição, está profundamente marcada pelo paradigma dos ângulos retos. Contudo, embora majoritariamente retangulares, assim como os suportes das pinturas e os ambientes em que ambas se instalam, as janelas não são neutras, tampouco iguais. Janela é função, mas também é forma.

Luiz Zerbini, Copan (2010)

As janelas dos fundos do Louvre foram concebidas originalmente em madeira e vidro. Sabe-se que João Artacho Jurado (1907-1983), arquiteto do edifício, desenhava em parceria com o Liceu de Artes e Ofícios muitas de suas janelas, sobretudo as localizadas nas fachadas principais, normalmente maiores; aos fundos estipulava outras mais convencionais disponíveis no mercado de construção da época, por isso mais baratas, mesmo que generosas se comparadas à indústria atual. Algumas delas foram substituídas recentemente com autorização do condomínio por similares em alumínio pintado de branco. Empresas costumam distribuir anualmente nas caixas de correio dos moradores ofertas e divulgações sobre as vantagens da troca em relação à vedação da chuva e do som. As janelas dos fundos do Louvre, apesar de terem em geral a mesma dimensão, alternam-se entre duas tipologias, que acompanham o programa dos apartamentos do bloco Pedro Américo, em geral quartos e salas. Compostas de quatro partes iguais, em que as duas folhas centrais podem ser abertas, apenas na veneziana dos quartos soma-se externamente uma persiana produzida originalmente em ferro pela empresa Ferraretto, podendo ser também reclinada em 60º, permitindo alguma entrada de luz e vento, mesmo em dias de chuva, com pouco prejuízo da intimidade que visa resguardar.

Enquanto na fachada de frente do Copan brises escondem todas as janelas que revestem os ambientes de salas e quartos de apartamentos de diversos tamanhos, nos fundos elas aparecem completamente desnudas, sobretudo no bloco B, originalmente pensado para abrigar um hotel. Divididas em 20 partes retangulares de tamanhos variados, as janelas desenhadas por Oscar Niemeyer (1907-2012) em vidro e aço têm frontões superiores basculantes que permitem ventilar o ambiente mesmo com as folhas principais fechadas. Os frontões inferiores são de vidro opaco para ampliar a iluminação do ambiente sem prejudicar a privacidade. Originalmente, os apartamentos dos blocos C ao F teriam áreas de serviço voltadas para trás, por isso mais da metade da fachada posterior do Copan é marcada com cobogós de alvenaria, que permitem ventilar o espaço sem expor as roupas e os cômodos de serviço. Com as alterações do projeto para a construção do edifício, vários apartamentos dos blocos E e F têm suas salas e quartos voltados para esses fundos, gradeando suas vistas. Diversas alterações, porém, foram produzidas pelos moradores; muitos abriram janelas a cerca de 110cm do piso, demolindo a parte superior dos cobogós. Nas kitnets com janela do teto ao chão, ao contrário, alguns construíram alvenaria até a mesma altura, criando um espaldar que reduz a sensação de vertigem, deixando os tijolos à vista de fora pelo vidro.

São mais explícitas no edifício São Luiz Plaza as diferentes tipologias de janelas que revelam o ambiente onde se encontram. Alternam-se janelas um pouco maiores de duas folhas de vidro e alumínio – aí se localizam as salas; há janelas menores, também divididas em duas folhas, mas apenas em alumínio, sem vidro, com venezianas para a respiração do ambiente, resguardando a privacidade dos quartos; além delas, há basculantes mais altos e menores, com vidro opaco, relativos aos banheiros; por fim, paredes inteiras dos apartamentos, que criam gigantes quadrados para quem os vê de fora, gradeadas de alvenaria, onde se localizam as cozinhas e as áreas de serviço. Diferentemente do Louvre, em que todos os banheiros dos apartamentos dos fundos têm janelas voltadas para o vão central do prédio, juntamente com as lavanderias, e no Copan, em que a maioria dos banheiros ou não têm janela, ou estão direcionados para o espaço das áreas de serviço resguardadas pelos cobogós – ou seja, ambos com suas fachadas frontais reservadas para as salas e os quartos –, no São Luiz Plaza os banheiros e as áreas de serviço estão orientados para as fachadas, algo mais comum nas plantas de prédios populares do que nos edifícios de classe média.

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O Louvre e o Copan foram construídos na década de 1950, quando a comunicação de massas migrava do rádio para a televisão. Com ela, alterou-se radicalmente a forma de se fazer política, cada vez mais próxima de publicitários e de outros estrategistas da imagem. No Brasil, durante a chamada Nova República, se considerarmos o período entre a eleição de Fernando Collor de Melo e o golpe contra Dilma Rousseff em 2016, muitos dos acordos políticos durante os mandatos visavam ampliar o tempo de horário político obrigatório de cada coligação fundamental para o sucesso eleitoral dos seus candidatos. Desde a campanha eleitoral de 2018, as redes sociais tornaram- se a mídia central na estratégia dos políticos para a gestão e a circulação de informações, verdadeiras ou não. A centralidade da comunicação migrou da televisão para os computadores e, sobretudo, para os celulares.

Desde os anos 1980, no contexto do primeiro ciclo do neoliberalismo e do capital financeiro, foram construídos mundialmente muitos prédios espelhados e, mais recentemente, cobertos por superfícies mais ou menos translúcidas, que transformaram os edifícios em caixas de reflexo e de luz, o que tornaria a janela, em princípio, obsoleta. 5WISNIK, Guilherme. Dentro do nevoeiro. São Paulo: Ubu, 2018. Muitas vezes nesses projetos não há a possibilidade sequer de abrir as membranas que os revestem, controlando-se toda a luminosidade com persianas e cortinas internas, e toda a climatização com ar-condicionado. A janela em tese seria aos poucos superada pelas fachadas contínuas, cortinas de vidro, que não enquadrariam mais nada, bem em consonância com o espírito relativista e anti-histórico pós-moderno.

Entretanto, as janelas parecem se reafirmar como dispositivo estrutural das políticas de representação contemporâneas. Até mesmo o mais conhecido sistema de uma das maiores empresas de informática do mundo chama-se Windows– cuja imagem clássica de fundo de tela é diretamente inspirada em um enquadramento de uma paisagem ideal; também nas concorrentes utiliza-se o mesmo termo ao se navegar por superfícies retangulares que se sobrepõem. Nas manifestações políticas brasileiras dos últimos anos foi por meio das janelas, virtuais-reais, que muitos foram atravessados pela promessa de uma maior horizontalidade e simetria entre o povo e o poder, criando novos paradigmas do que seja manifestação e participação, alterando a equação de forças políticas do país. Contudo, a janela é anterior à pintura, mas posterior à política. Esta parece ser a matriz organizadora dos desenhos formais daquela, com profundos efeitos nas vidas dentro e fora do vidro.

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Esse texto foi originalmente publicado no livro vermelhos (museu do louvre pau-brazyl, 2020) e revisado em junho de 2021.

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    AVERMAERTE, Tom et al. (orgs.). Balcony. Venice: Elements of Architecture, 14. International Architecture Exhibition, la Biennale di Venezia, 2014. Curadoria de Rem Koolhaas.
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    DI ROBILANT, Manferdo; MAAK, Niklas et al. (orgs.). Window. Venice: Elements of Architecture – 14. International Architecture Exhibition, la Biennale di Venezia, 2014. Curadoria de Rem Koolhaas.
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    COLOMINA, Beatriz. “X-ray Architecture: Illness as Metaphor”. Positions #0, 2008. “X-Screens: Röntgen Architecture”. e-flux journal #66, out. 2015.
  • 4
    ARDUI, Olivia. “De corpos expostos: entre presença e representação”. In: ARDUI, Olivia, BRYAN-WILSON, Julia, PEDROSA, Adriano. Histórias da dança. Vol. 1: catálogo. São Paulo: MASP, 2020.
  • 5
    WISNIK, Guilherme. Dentro do nevoeiro. São Paulo: Ubu, 2018.

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